Comitê futuro do trabalho e Educação 2026: informação, contexto e conhecimento

Começaram os trabalhos do Comitê Futuro do Trabalho e Educação da ABRIA em 2026. Entenda o propósito e a estrutura de trabalho do comitê.

Comitê FTE 2026 informação, contexto e conhecimento - Abria

“Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?”

Por Adriele Marchesini.

Tinha a intenção de abrir este artigo com uma belíssima frase atribuída a Cora Coralina. Não achei a fonte oficial. Comprei seus livros, me perdi em alguns dos seus poemas, escrutinei sua história na internet, fiz prompt atrás de prompt em mais de um LLM. Nada. A epígrafe aparece muitas vezes, nos mais variados sites — mas sem jamais indicar nome de livro e muito menos número de página. Desisti da ideia e me rendi a uma também ótima observação — esta confirmada em mais de uma fonte — de T. S. Elliot. Você passou por ela antes de começar este parágrafo.

Desde a chegada da Web 2.0 e a democratização da produção de conteúdo digital, o “diz-que-me-diz” que até poderia ser inofensivo no mundo analógico começou a criar “verdades” — entre aspas pela ausência de lastro na realidade — no universo digital. Essas “verdades” sobrepostas servem como referência acessível a qualquer pessoa com conexão à internet. E a cultura do descompromisso com a conferência referencial cria a tempestade perfeita para falta de clareza na tomada de decisão.

Os impactos da inteligência artificial ainda não foram completamente compreendidos e, por carregarem a incerteza típica de transformações tecnológicas, ativam o medo. O medo é o instrumento útil para pseudoespecialistas ganharem engajamento, falsos profetas encherem o bolso de dinheiro vendendo cursos desnecessários e fornecedores mal intencionados emplacarem suas soluções que nada solucionam de fato. Na melhor das hipóteses, serve para pessoas bem intencionadas perderem tempo e recursos.

Portanto, a decisão de não citar a frase atribuída a Cora Coralina é metalinguagem do propósito do Comitê Futuro do Trabalho e Educação, da Associação Brasileira de Inteligência Artificial, que teve a primeira reunião de 2026 neste 30 de março último:

Produzir conhecimento consistente e relevante sobre os impactos da inteligência artificial no trabalho na educação — do ponto de vista teórico e prático —, sendo uma âncora de razoabilidade e confiança para o ecossistema.

Este é o segundo ano de atividades do comitê, que apesar da pouca idade, já conquistou uma estrutura robusta, dividida em quatro pilares: Observatório do Conhecimento e Inteligência Humana, Integração, Laboratório de Experimentação e Abria Talk:

  • Observatório do Conhecimento e Inteligência Humana: núcleo duro do comitê, formado por pessoas com experiência acadêmica e orientação pedagógica, criado para garantir que as discussões sejam fundamentadas em evidências científicas e alinhadas ao rigor acadêmico —  frases ou conceitos atribuídos a pensadoras e pensadores não passarão. O grupo é responsável por curar a jornada de conhecimento que será trabalhada ao longo do ano pelo comitê e orientar membros que se voluntariarem a pesquisar as pautas levantadas.  Tem compromisso com a diversidade de gênero, raça e região do Brasil — para vencermos a inércia que nos faz cair na bolha da realidade que só serve à Faria Lima;
  • Integração: são os encontros entre os membros do comitê, realizados de forma online ou híbrida uma vez por mês. Nesses momentos apresentamos os resultados das pesquisas orientadas pelo Observatório do Conhecimento e Inteligência Humana;
  • Laboratório de Experimentação: aqui saímos da teoria e vamos à prática. A ideia é “brincar”, fazer testes e prototipagem para apoiar no desenvolvimento de novas formas de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades por meio da integração entre inteligência humana e sistemas inteligentes;
  • Abria Talk: momento em que o Comitê FTE fala com a sociedade, por meio de apresentações transmitidas ao vivo pelo YouTube.

Essa estrutura serve para entregar os quatro objetivos específicos do Comitê FTE:

  • Curar conhecimento: selecionar, com rigor e critério, os temas prioritários no debate sobre IA, trabalho e educação;
  • Produzir e disseminar conhecimento: gerar artigos, notas técnicas e relatórios que elevem o padrão do debate e sirvam de base para decisões de lideranças corporativas, educadores e formuladores de políticas públicas;
  • Ampliar o imaginário sobre carreira em IA: contribuir  para uma força de trabalho mais numerosa, diversa e qualificada;
  • Experimentar: prototipar e testar ideias do comitê, transformando reflexão coletiva em prática.

Para atender ao objetivo “Ampliar o imaginário sobre carreira em IA”, seguimos em 2026 com as células de diversidade, pelas quais são criados projetos de impacto com começo, meio e fim. Por ora, dentre as células possíveis para representar grupos minorizados — pessoas pretas, PCDs, indígenas, LGTQIAP+ e mulheres — a última está ativa, com um projeto em andamento.  Trata-se do livro “Elas na IA: a força feminina na construção da inteligência artificial no Brasil”, que vai trazer a história de dez profissionais anônimas e dados de uma pesquisa quantitativa inédita. Parte dos patrocínios para realização da obra será doada à PrograMaria. Mais informações aqui.

Os 3 eixos da jornada de conhecimento

A jornada de conhecimento do Comitê FTE será construída a partir de três eixos: indivíduo, formação profissional e práticas de trabalho.

Sob o primeiro eixo — indivíduo — Indivíduo, pesquisando tanto como a IA pode ajudar na construção de projetos de vida quanto nos impactos que a demanda pela hiperadaptabilidade resvelam na saúde mental.

Do ponto de vista da formação profissional, debateremos quais características a IA exige do profissional qualificado, como as estruturas educacionais podem ser adaptadas para apoiar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e de que forma soluções de inteligência artificial apoiam profissionais juniores a preencherem lacunas de conhecimento.

Por fim, sob o terceiro eixo — práticas de trabalho — investigaremos o uso da IA no trabalho informal e os perigos que a tecnologia traz para a gestão do conhecimento corporativo.

Construção coletiva — e em construção

O Comitê FTE é resultado da união de mentes curiosas, capacitadas e dedicadas. Caso você queira participar como membro volante ou com alguma função de pesquisa, preencha este formulário. Lembrando que todas as funções são voluntárias e exclusivas a associados Abria. 

Conheça os participantes: 

Gestão

  • Adriele Marchesini — presidente do Comitê FTE
  • Danilo Silva — vice-presidente do Comitê FTE
  • Danilo Bezerra — guardião do conhecimento
  • Thales Souza — gerente de marketing da Abria
  • Eva Lazarin — presidente do Conselho Consultivo da Abria

Observatório do Conhecimento e Inteligência Humana

  • Dirceu Matheus — Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP)
  • Samanta Lopes — Escola de Negócios da Favela (SP)
  • Daniel Luzzi — Cognita Learning Lab (SP)
  • Itamar Iliuk — Universidade Tecnológica Federal do Paraná (PR)
  • Weysller Matuzinhos — Faculdade SENAI Fatesg (GO)
  • Breno Dumas — Universidade Presbiteriana Mackenzie (DF)
  • Henrique Cunha — PUC Minas (MG)
  • Glaucia Silva — Instituto Federal de EC&T do Maranhão (MA)
  • Onildo Ribeiro — Universidade Estadual do Tocantins (TO)

Laboratório de Experimentação

  • Daniel Luzzi — Cognita Learning Lab

Sobre contexto

Por que mais um grupo para discutir sobre os impactos da TI?

Eu fiz essa pergunta a mim mesma antes de propor a criação do Comitê, ainda em 2024. Pelo acesso à informação, em si, não faria muito sentido: não sofremos, ao menos a parte privilegiada que se interessa sobre o assunto, com esse tipo de escassez. E se o problema for entendimento, os próprios LLMs podem ajudar a compreender os conceitos mais difíceis. 

A diferença, certamente, está na curadoria: excesso de informação afoga nossa capacidade cognitiva. Olhares experientes, atentos e comprometidos com o rigor científico funcionam como porto seguro nesse mar digital revolto repleto de incansáveis ondas de dados. 

Mas a troca, a interação, ao meu ver, é o componente ao mesmo tempo de difícil mensuração e de impacto mais profundo. É nas conversas que a informação ganha contextos que, na solitude, dificilmente atingiríamos. Ampliar contextos amplia visões.

A bela estrofe do começo deste texto, assinada por T. S. Elliot, por exemplo. Funciona muito bem sozinha. 

Quando descobre que ela é parte de uma peça teatral inteira, talvez seu cérebro reaja com curiosidade. Ao receber a informação de que essa tal peça foi estreada na década de 30, a imagem mental ganha novos contornos. Em Londres — outros elementos. Talvez, ao descobrir que a obra fala sobre os males enfrentados pela humanidade pela perda de conexão com o divino — e divino a partir do dogma cristão — os significados que você havia dado antes se reconfigurem. Você pode reagir com identificação, com repulsa. Tanto faz. 

A reação, o impacto, que o contexto promove — é esse afeto que nos ajuda a transformar a mera informação em conhecimento.  E é isso que planejamos estimular ao longo de 2026.

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